puerperio
Puerpério
Autorretrato 2011.
Eu na frente do espelho.
Maria recém nascida.
Eu recém parida.
Nua.
Só.
Em casa… Encantada.
Cansada.
Chorava.
Queria colo.
Eu.
Sozinha.
Um bebê.
Dois peitos.
Um espelho…
autoretrato
É uma arte relacional de um encontro com o outro.
São retratos tridimensionais em argila. Modelados manualmente. Nas artesanias das relações.
No tamanho que cabem nas mãos é o tamanho que dá conta. Afeto, acolhe.
No feminino, na maternidade, na arte da manutenção, nos sobra pouco. Pouco espaço, pouco tempo, pouca disponibilidade….
Então, pequenos formatos é o que cabe e dou conta…
1,5
Campo, 2021
Ação realizada durante o período da pandemia de Covid-19 para a chamada “Um Metro e Meio”, da coletiva de mulheres Gomagrupa, na qual a proposta era realizar um trabalho em 1,5m de diâmetro.
Eu corpo nu no centro do círculo. Um metro e meio de raio. Um espelho fora desse espaço. Numa prática de costume: o auto retrato.
O círculo é a extensão de mim. Precisava de um suporte rígido para o registro. Uma caixa de papelão que continha algo e agora nada. Desmontei o tridimensional em meu corpo. Desenho concluído.
Vestida do desenho. O acaso se fez. A cor do papelão é do tom da minha pele. As proporções se encaixavam no meu corpo.
Estava nua, Pelada.
Retrato
As cabeças que cabem nas mãos
LAMBE LAMBE
Lambe é um ensaio visual, publicado na revista Têmpera, 2021.
pintura
Azul
Azul, cor do afeto
“O santo bateu.”
Pergunto a João se ele gostaria de posar.
Ele responde:
— Agora!
Em seguida, sugere:
— Sabe aquela minha pintura toda azul…
Pronto!
Inicio o retrato dele sobre uma pintura sua, inteiramente azul.
Uso tinta acrílica e bastões de tinta a óleo.
Foram duas sessões.
Com a pintura pronta, esticamos a tela para ver o retrato emergir da imensidão azul criada por João. A partir daí, iniciamos a sessão de fotos e registros.
A tela passa a ser fundo e parte do todo —
foto, corpo, presença, ausência, desejo, persistência, falta.
No dia desses registros (28/10/2025), acontecia uma operação policial , assassina , no Rio de Janeiro.
Mais de 100 pessoas morreram.
Sabemos o recorte social, de classe e raça, dos mais atingidos.
O Rio sangrou mais uma vez.
tutoia
erotica
O Retrato e a Rede: Encontros entre Arte e Cotidiano
Em 2020, o desejo de isolamento levou-me ao Maranhão, território materno, mais especificamente ao povoado de Arpoador, em Tutóia, uma vila nas proximidades dos Lençóis Maranhenses. Ali, fui acolhida por Padinha, em seu pequeno restaurante/casa que levava seu próprio nome. Era um local modesto, cercado por um cenário árido e extenso. Nesse ambiente desenvolveu-se um encontro que revelaria a maneira como percebo o desenho e o retrato e sua capacidade de estabelecer relações para além da palavra.
Na bagagem, como sempre, carregava lápis, papéis e um pequeno estojo de aquarela, pois o ato de desenhar exige disponibilidade para capturar instantes e presenças. Nesse contexto, surgiu Gabriel, sobrinho de Padinha, um menino de sete anos cuja vivacidade e presença integral, de um corpo criança onde a maré é a sinalizadora do tempo e a árvore sua sombra entre uma brincadeira e outra, marcaram a experiência artística que ali se desdobrou. O desenho, então, tornou-se um elo entre nós, uma linguagem compartilhada que ultrapassava barreiras e aproximava mundos.
A prática do retrato sempre ocupou lugar central na história do desenho, sendo mais do que um registro físico: um meio de apreender subjetividades, gestos e atmosferas. Em Gabriel, sua movimentação espontânea pelo espaço e sua capacidade de presença revelavam uma qualidade plástica. Cada traço vigoroso sobre o papel tornava-se um exercício de observação, um diálogo silencioso entre o olhar e a matéria.
No ambiente doméstico, outro personagem se impunha com força histórica e emocional: Maria Antônia, avó de Gabriel e uma das primeiras moradoras do local. Sua presença, marcada pela idade avançada e pela fragilidade da saúde, evocava um tempo anterior ao meu olhar, uma trajetória entre paisagens áridas e deslocamentos contínuos. Retratá-la seria, portanto, um registro de um tempo, um gesto de aproximação e reconhecimento. Um desejo que se impôs como necessidade de honrar a vida de uma mulher de 93 anos que resistiu a tempos difíceis. Minha citadina e pequena existência tenta se aproximar.
O desenho, na tradição artística, estabelece uma rede entre passado e presente, entre quem observa e quem é observado. Em Arpoador, essa rede expandiu-se para além do papel, englobando gestos cotidianos, conversas sob o som de Roberto Carlos no restaurante de Padinha e a experiência sensorial da areia que invadia os espaços. A rede também é lugar de descanso, onde o corpo frágil de Maria Antonia repousava todos os dias. Aquele cenário bucólico e misterioso flutuava em campos contraditórios, me sentia uma personagem estranha naquela cena e, ao mesmo tempo, o desejo de me aproximar para o registro do desenho me atravessava.
Ao partir, deixei para trás não apenas um local, mas uma trama de relações, traços e silêncios compartilhados. A imagem de Gabriel, sempre em movimento, permanece como um vestígio dessa troca: um desenho inacabado, uma presença em permanente transformação. Pois, como toda rede, a arte também se estende para além de si mesma, tecendo encontros que reverberam muito depois do último traço sobre o papel.
Texto para revista – GomaGrupa – 2026
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É uma arte relacional de um encontro com o outro.
São retratos tridimensionais em argila. Modelados manualmente. Nas artesanias das relações.
No tamanho que cabem nas mãos é o tamanho que dá conta. Afeto, acolhe.
No feminino, na maternidade, na arte da manutenção, nos sobra pouco. Pouco espaço, pouco tempo, pouca disponibilidade….
Então, pequenos formatos é o que cabe e dou conta…
É uma arte relacional de um encontro com o outro.
São retratos tridimensionais em argila. Modelados manualmente. Nas artesanias das relações.
No tamanho que cabem nas mãos é o tamanho que dá conta. Afeto, acolhe.
No feminino, na maternidade, na arte da manutenção, nos sobra pouco. Pouco espaço, pouco tempo, pouca disponibilidade….
Então, pequenos formatos é o que cabe e dou conta…